Poluição aumenta pressão arterial de hipertensos e diabéticos
- Teresa Santos
- 4 de ago. de 2019
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A exposição crônica à poluição aumenta a pressão arterial de pessoas que trabalham em ambientes externos, principalmente as que têm hipertensão e/ou diabetes.
Segundo um estudo da Universidade de São Paulo (USP) publicado em julho no periódico Environmental Research, [1] uma elevação de 10 μg/m3 na concentração de material particulado com diâmetro aerodinâmico < 2,5 micrômetros (MP2,5) foi associada a um aumento de 3,9 mmHg na média da pressão arterial (PA) em 24 horas pelo exame MAPA (monitorização ambulatorial da pressão arterial durante 24 horas) de taxistas, agentes de trânsito e guardas florestais com diabetes e/ou hipertensão moradores da cidade de São Paulo.
O Dr. Ubiratan de Paula Santos, pneumologista do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, falou ao Medscape sobre os dados do trabalho.
A pesquisa observacional avaliou 88 trabalhadores não fumantes do sexo masculino entre 18 e 65 anos de idade que viviam em São Paulo há pelo menos 10 anos. Entre os critérios de inclusão, estava ainda trabalhar em ruas, avenidas ou parques da cidade há no mínimo dois anos.
Ao longo do estudo, realizado de maio de 2010 a março de 2012, os participantes compareceram ao InCor uma vez por semana durante um mês. Em cada consulta, os trabalhadores recebiam um equipamento portátil para registrar os níveis de exposição ao MP2,5 em tempo real por 24 horas e um dispositivo de MAPA durante 24 horas; ambos eram devolvidos na manhã seguinte.
Os resultados mostraram que taxistas e agentes de trânsito tiveram exposição maior à poluição do ar do que os guardas florestais. Quinze participantes (17%) foram diagnosticados com hipertensão, sendo que quatro deles também tinham diabetes. Outros cinco tinham apenas diabetes.
A exposição a níveis mais altos de poluição teve um efeito significativo na elevação da pressão sistólica e diastólica de participantes com hipertensão e/ou diabetes, mas não em sujeitos sem essas doenças.
O Dr. Ubiratan disse que o grupo verificou que os participantes que não tinham hipertensão nem diabetes também apresentaram aumento da pressão quando expostos a maiores concentrações de partículas poluentes, porém não foi um aumento estatisticamente significativo.
"Houve, portanto, uma tendência de aumento da pressão em indivíduos saudáveis; é possível que se tivéssemos um tamanho amostral maior, talvez encontrássemos significância", afirmou, lembrando que, "em um estudo anterior, o grupo do InCor encontrou uma associação positiva entre exposição a altos níveis de poluição e elevação da pressão arterial em controladores de tráfego saudáveis. Nesse caso, não ter hipertensão nem diabetes foi um dos critérios de inclusão na pesquisa". [2]
O desenho do estudo publicado esse ano buscou, segundo o Dr. Ubiratan, investigar a existência de um possível efeito crônico. "Trabalhamos com agentes de trânsito, ou seja, profissionais que têm certa estabilidade, que não mudam com frequência de emprego. Além disso, citamos dados da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) [3] que mostram que a poluição por material particulado em São Paulo está mais ou menos estável nos últimos dez anos, de maneira que o que encontramos parece realmente refletir uma exposição crônica, ou seja, a exposição crônica à poluição em São Paulo tem impacto importante sobre a pressão arterial da população em geral, porém, é mais relevante nos indivíduos que têm hipertensão ou diabetes", esclareceu.
Segundo o médico, a poluição, o diabetes e a hipertensão atacam as paredes dos vasos sanguíneos. Estudos revelam que a poluição do ar está associada a maior incidência de diabetes tipo 2.
Diante dos achados da pesquisa, o especialista destacou que o ideal é que hipertensos e/ou diabéticos recebam atenção especial no período de maior flutuação dos níveis de poluição no ar: "Notamos que, em São Paulo, de abril/maio a outubro a poluição é bem mais elevada por conta do fluxo de veículos e do clima mais seco, que favorece a permanência da poluição no ar por mais tempo. Já entre novembro e março chove um pouco mais e, além disso, de dezembro até pelo menos metade de fevereiro temos o período de férias escolares, o que reduz significativamente a quantidade de veículos circulando pela cidade", explicou o Dr. Ubiratan.
É, portanto, recomendado que entre abril e outubro os pacientes diabéticos e/ou hipertensos tenham a pressão arterial monitorada com mais frequência, principalmente os que apresentam as duas doenças.
"Às vezes o paciente está controlado e o médico marca o retorno para daqui a um ano, oito ou seis meses. No entanto, é preciso ficar atento para que neste período o paciente tenha, pelo menos, duas ou três avaliações para verificar se não é necessário algum ajuste na dose do medicamento para controle da pressão", explicou o pneumologista.
De acordo com o médico, a pesquisa mostrou que esses pacientes, mesmo usando medicamentos, tiveram a pressão afetada de forma importante nos períodos de maior concentração de material particulado no ar.
"Alguns estudos anteriores sugeriram que as pessoas que estavam com a pressão controlada com medicamentos poderiam ter uma resistência maior ao impacto da poluição, mas a nossa pesquisa evidenciou que, na verdade, elas são mais suscetíveis".
Outra medida importante na atenção a esses pacientes é a orientação para a prática de atividade física regular.
"Os indivíduos hipertensos e diabéticos se beneficiam da prática de exercício físico de intensidade leve a moderada, preferencialmente em ambientes fechados ou em vias de tráfego secundário – no mínimo a 300 metros de distância das vias de grande tráfego", ressaltou o pesquisador.
Citar este artigo: Poluição aumenta pressão arterial de hipertensos e diabéticos - Medscape - 19 de julho de 2019.